Óleos alimentares pelo cano

Oleões: mais um exemplo da tentação de destruir um passado recente que se reconstrói depois…

Contando com o apoio da QUERCUS, a Câmara Municipal de Sintra, através da AMES (Agência Municipal de Energia de Sintra) e da HPEM, lançou em 2003, o Plano de Valorização de Óleos Alimentares Usados, traduzindo-se na recolha deste resíduo e no seu encaminhamento para produção de biodiesel. Este combustível era posteriormente consumido na frota de veículos do município (num total de 53), assegurado por um posto de abastecimento próprio – o 1º a nível nacional para biocombustíveis, numa proporção de 5%.

Há cerca de 5 anos atrás a informação disponibilizada dava conta de que em média eram recolhidos mensalmente 2000 litros de óleo, reconhecendo ainda assim que era pouco face ao potencial e à capacidade instalada e contando que a aposta no Programa, com o reforço de dispositivos para recolha do óleo alimentar e campanhas de sensibilização dirigidas ao público em geral e às Escolas concelhias gerasse um impulso significativo.

A recolha deste resíduo contava ainda desde 2005 com 23 oleões que se encontravam instalados nalguns locais, contabilizando-se dois anos após um quantitativo de quase 28.000 litros recolhidos a partir dos oleões de rua.

Em 2010, 80 oleões na via pública – com uma capacidade instalada de 34.000 litros, 76 escolas e 47 cantinas aderentes faziam prever resultados muito promissores.

Problemas sinalizados quanto à estanquicidade dos recipientes, muitas vezes derivados do deficiente acondicionamento do óleo em garrafas ou garrafões rolhados, provocando que situações houvesse em que vertesse para o espaço envolvente, suscitariam pedidos de intervenção em matéria de limpeza, admitindo-se que se trataria de um inconveniente que a sua substituição por modelos mais eficientes decerto permitiria ultrapassar, associada a um reforço de sensibilização junto dos consumidores domésticos.

Ora o anúncio da sua retirada do espaço público em Novembro de 2014, alegando necessidade de reavaliação do processo e dos procedimentos associados de que seriam informadas as Juntas de Freguesia, chocava a nosso ver com o investimento realizado quer em termos materiais quer em termos de educação ambiental, comprometendo a capitalização dos dividendos do trabalho desenvolvido e deitando por terra um capital essencial em matéria de eco-cidadania e de consciencialização.

Não que não pudesse melhorar-se! A isso mesmo tivemos ocasião de nos referir em Março deste ano, quando na Reunião Camarária de 24 de Março foi este assunto abordado pelos Vereadores do Movimento “Sintrenses com Marco Almeida”.

Salientando que não havia a presunção de que se tratava dum modelo sem mácula ou que não houvesse que limar arestas ou recorrer a diferentes meios para alcançar os fins propostos, questionava-se a sua desactivação sem ser apresentado um programa alternativo e de se ter interrompido um ciclo com ganhos ambientais inquestionáveis, deixando as pessoas que tinham aderido a essas boas práticas sem resposta para as dúvidas que legitimamente se colocam quanto à oportunidade dos comportamentos que seguiram até então e sem que lhes fosse dada qualquer informação sobre que atitude tomar para encaminhamento do resíduo em causa e para o que um simples autocolante afixado nos contentores dos indiferenciados poderia representar uma singela nota de respeito pelo que fez cada um dos munícipes em observância daquilo para que foram convocados e por tudo quanto foi feito em nome da sustentabilidade ambiental e do futuro.

Surpreendente ou talvez não, na Reunião Camarária do passado dia 27 de Outubro, ou seja 7 meses depois, é presente uma informação dos SMAS-Sintra sobre o Plano de Ação – Óleos Alimentares Usados.

Com o prazo a “queimar”, uma vez que de acordo com o preceituado na legislação em vigor – Dec. Lei nº 267/2009 de 29 de Setembro – o município de Sintra deve disponibilizar até ao final de 2015 uma rede de, no mínimo, 80 oleões, eis que consagra o referido documento a reutilização dos equipamentos instalados, mediante um investimento estimado de 800,00€ + IVA para colocação de cadeados e execução de autocolantes.

Um ano depois da sua retirada, voltam a ser colocados os oleões que eram acusados de padecer de desconformidades, com uma ligeira recauchutagem, tão ligeira que não justificaria certamente 12 longos meses para a implementação das reivindicadas melhorias.

Pouco, muito pouco, para quem, reclamava ter que se fazer melhor!

Pelo caminho, certamente que foi para o cano muito óleo alimentar usado, como pelo cano foi parte do capital de sensibilização que se acumulara já.

TOPO